Ninguém nos ajudará no
processo de reciclagem do
coração e eu entendo isso
devagar, como se digerisse.
Mastigo as palavras compassadamente
e explico na partitura a interrogação
do poema que, depois de escrito,
me morre como uma caneta sem tinta
nas mãos gastas e cansadas de servir de
motel a demasiadas lágrimas inférteis
e impróprias ao sopro com que se propagam.
É provável que morra de novo sem que ninguém
se aperceba sequer da ressurreição.
A sua ciclicidade é semelhante a qualquer outra.
O poema é o coração repetido vezes sem conta
no círculo imperfeito de um LP riscado de agulhas
pouco precisas.
O nosso problema é continuar a acreditar
que se ouvem discos em "stereo" com agulhas
para discos em "mono". Fazêmo-lo até à exaustão.
No fim sobra um coração dilacerado
e uma maçã oxidada sobre a mesa.
12 Maio 2010
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2 comentários:
Francamente das melhores coisas, tuas, que li. Convenhamos, até: tuas e não só.
Não te conheço e gostei.
A ideia da exaustão, da indiferença a um processo "dilacerante".
Parabéns!
Vou seguir o blog.
Lipincot
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